quinta-feira

Pastoril, um folguedo natalino

Pintura de Marcio Melo

O Pastoril é um folguedo popular dramático de origem européia, representado entre o Natal e a Festa de Reis (05 de janeiro), em vários Estados do Nordeste brasileiro. São cordões com diversos personagens, entre as quais as pastoras ou pastorinhas, que cantam e tocam maracá. De origem religiosa, também é denominado Presépio. Segundo Pereira da Costa, o uso de Presépios em Portugal teve início no Convento das Freiras do Salvador, em Lisboa, em 1391, levantando-se no meio do templo uma armação representando o Estábulo de Belém, com figuras que representavam a cena do nascimento de Jesus. Depois, já no século XVI, foi o assunto dramatizado, teve entrada no teatro e é talvez daí que vem o auto hierático português, de tão variados assuntos. No seu Dicionário do Folclore Brasileiro, Luís da Câmara Cascudo assim define o Pastoril: cantos, louvações, loas, entoadas diante do presépio na noite do Natal, aguardando-se a missa da meia-noite. Representavam a visita dos pastores ao estábulo de Belém, ofertas, louvores, pedidos de bênção. Os grupos que cantavam vestiam de pastores, e ocorria a presença de elementos para uma nota de comicidade, o velho, o vilão, o saloio, o soldado, o marujo, etc. Os pastoris foram evoluindo para os autos, pequeninas peças de sentido apologético, com enredo próprio, divididos em episódios que tomavam a denominação quinhentista de "jornadas" e ainda a mantêm no Nordeste do Brasil. Pereira da Costa afirma que a introdução do Presépio em Pernambuco vem, provavelmente, de fins do século XVI "iniciada no Convento dos Franciscanos de Olinda, por Frei Gaspar de Santo Antônio, primeiro religioso que tomou o hábito no Brasil, naquele mesmo convento, em 1585".
Fonte:Pernambuco de A a Z

sexta-feira

Cosmologia


Obras-primas da Santa Natureza
*Autor: G.G. da Silva,engenheiro de telecomunicações e administrador, com pós-graduação em ciências políticas.


Para a ciência, a simetria só tem valor quando corresponde à realidade. Uma das mais antigas simetrias que se conhece foi atribuída ao mundo por Pitágoras, há cerca de 25 séculos, segundo a qual o Sol, a Lua, cada um dos planetas e o conjunto das estrelas estavam fixos em esferas translúcidas, todas girando de forma independente em torno da Terra. O conjunto de esferas formaria o Céu, onde tudo seria perfeito, com movimentos em trajetórias circulares ou em combinações de círculos; na Terra estariam as imperfeições e os fatos imprevisíveis, como tempestades, trovoadas, estiagens.

Essa concepção cosmológica, muito celebrada na antiguidade juntamente com a harmonia dos números e dos sons musicais, foi superada graças aos trabalhos de cientistas como o polonês Nicolau Copérnico, o alemão Johannes Kepler e o inglês Isaac Newton, ao longo dos séculos XVI e XVII. Pela causa, no entanto, houve quem morresse queimado na fogueira, como Giordano Bruno; ou quase, como Galileu Galilei...

Um fato que ajudou a desbancar a crença nas esferas foi, justamente, a observação de uma quebra na simetria suposta e desejada. O astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, que fora professor de Kepler, não acreditava nessa distinção entre o Céu e a Terra por causa do comportamento irregular dos cometas, os quais, apesar de pertencerem ao Céu, obviamente não possuíam movimentos circulares e, portanto, não eram perfeitos. Se algo no Céu não era perfeito então toda suposta perfeição seria suspeita. Qualquer cometa passou a ser observado, então, com muita curiosidade, pois poderia ser a resposta para uma relevante questão.

Charles Messier (1730-1817), um astrônomo francês, era um “caçador de cometas”, principalmente pela beleza desses objetos, mas também, provavelmente, influenciado pelas questões levantadas por Tycho Brahe no século XVI.

Messier começou a catalogar tudo que “não era cometa”, para poder se preocupar apenas com esses objetos. Até o final de sua vida, Messier relacionou mais de uma centena de “coisas”, chamando-as de M1, M2, M3 etc. designações ainda hoje utilizadas em sua homenagem. M31, por exemplo, é Andrômeda, galáxia muito maior do que a nossa; na verdade, Andrômeda comanda gravitacionalmente a Via Láctea e algumas outras galáxias menores agrupadas neste recanto do Universo. M74 é outra fantástica galáxia espiral, como se vê na foto, semelhante à nossa Via Láctea. M74 possui aproximadamente cem bilhões de estrelas e roda como um incrível carrossel, com sua harmoniosa simetria, não só espacial, mas também no tempo, pois recentes estudos levam a crer que os braços espiralados das galáxias espirais são decorrentes de sincronização – considerada uma simetria na dimensão tempo – dos efeitos gravitacionais laterais, entre as estrelas, planetas, objetos diversos, poeira e gases que ali se movimentam.

Nos braços das galáxias espirais estão os berçários de novas estrelas, as quais se formam com gases, poeira e restos de estrelas de gerações anteriores, principalmente das supernovas que, ao explodir, espalham átomos pesados forjados em seus núcleos e que são necessários para geração e manutenção da vida. Somos todos formados do barro oriundo de estrelas explodidas...

Pesquisar as imagens:
http://www.skyimagelab.com/messierimages.html

Anotação do Blog:
* Este artigo foi concedido ao meu blog pelo próprio autor (leia nos comentários)

domingo

Manoel Bandeira (poeta)

Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora do Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco.


Um dos maiores poetas brasileiros, Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu em Pernambuco, no dia 19 de abril de 1886, filho de Manuel Bandeira e Francelinalina Ribeiro de Souza. Além de poeta, ele foi ainda professor, jornalista, inspetor, tradutor e crítico literário. Manuel Bandeira viveu apenas o primeiro ano de sua vida no Recife, e logo se mudou para as cidades de Petrópolis e Rio de Janeiro, no Estado do Rio de Janeiro. Algum tempo depois ele retorna ao Recife, onde também residia seu avô Teotônio Rodrigues (na Rua da União, número 263), ali permanecendo por mais quatro anos - dos seis aos dez anos de idade. O poeta confessava sempre, porém, que as suas raízes mais profundas estavam fincadas em Petrópolis e, não, no Recife. Regressando ao Rio de Janeiro, Manuel Bandeira estudou no Colégio Pedro II. Em 1903, ele se matriculou no curso para a formação de engenheiro-arquiteto, na Escola Politécnica de São Paulo. Contudo, devido à aquisição de uma grave doença pulmonar no final da adolescência, teve que abandonar os estudos e cuidar da saúde por anos a fio. Como naquela época a tuberculose era considerada uma enfermidade estigmatizante - por ser contagiosa e incurável - o doente via-se forçado a vivenciar uma dolorosa solidão, ou seja, ficar isolado das pessoas sadias. Ver-se condenado à privação de tudo o que caracteriza a vida de um jovem, representou o fim de muitos sonhos para o jovem Manuel Bandeira. Ele aprendeu, porém, a conviver com a sua doença e acumulou um vasto conhecimento sobre ela. A condição de doente, portanto, contribuiu para que o futuro poeta administrasse a realidade, suportando-a e superando-a, e que desenvolvesse suas habilidades artísticas e intelectuais, e aprimorasse a técnica da arte poética. Neste sentido, face às limitações e barreiras que o destino lhe impôs, Manuel Bandeira decide assumir um compromisso definitivo com a poesia. Sem perder a esperança, o seu pai deu início a uma longa peregrinação em busca da cura do jovem tísico. Levou-lhe primeiro para Campanha, no Estado de Minas Gerais, onde Bandeira viveu de 1905 a 1906. Tendo que enfrentar uma vida itinerante em busca de uma melhora na saúde, ele se dirige em seguida para a cidade de Teresópolis, no Estado do Rio de Janeiro, lá residindo de 1906 a 1907. Durante dois anos seguidos - de 1907 a 1908 - esteve nas cidades de Quixeramobim, Uruquê e Maranguape, no Estado do Ceará. Os constantes deslocamentos à procura de um clima apropriado para tratar a tuberculose, influenciaram não apenas a maneira pela qual o futuro poeta viveu, mas também a forma como ele compreendeu o mundo. Ele viaja para a Suíça em 1913, a mando da família, internando-se no Sanatório de Clavadel por quinze meses. Foi lá que Manuel Bandeira tomou ciência do caráter definitivo de sua doença. Como não existia possibilidade de cura na época, o jovem teve que aprender através da disciplina as regras de convivência com o mal contraído. Dedicou-se à leitura e ao estudo, bem como ao aprendizado de violão - seu grande companheiro. Tendo permanecido cinco anos na Suíça, Manuel Bandeira pôde aprender fluentemente a língua alemã e conhecer bastante a arte e a cultura européias. Alimentando sempre a esperança de cura, mesmo nos períodos mais dolorosos de sua vida o poeta jamais se deixou assaltar pelo sentido do puramente trágico. Muito pelo contrário: ele desenvolveu uma extraordinária produção poética, reestruturando a sua identidade e empreendendo, assim, uma forma de diálogo com o mundo circundante, sem faltar nela o bom humor. O seu poema Pneumotórax é bastante elucidativo neste sentido.

"Febre, hemoptise, dispnéia, suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi:
tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
Diga trinta e três.
Trinta e três, Trinta e três... Trinta e três.
Respire...
O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo
e o pulmão direito infiltrado.
Então, Doutor, não é possível fazer um PNEUMOTORAX?
Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino".

http://www.fundaj.gov.br